Circulação de jornais cresce, mas futuro é incerto
Embora o americano Philip Meyer tenha previsto no livro Os jornais podem desaparecer? que o último jornal impresso irá circular em algum dia do ano de 2043, pelo menos até agora a mídia impressa está mostrando um vigor surpreendente. Esse fenômeno ocorre principalmente nos países emergentes.
India, China e Brasil mostram crescimento na circulação de jornais, fruto do aumento do poder aquisitivo e da incorporação de leitores das classes mais baixas, principalmente C e D. No caso do Brasil, o crescimento dos jornais chamados populares contribuiu para esse incremento.
A circulação dos jornais brasileiros cresceu 11,8% em 2007, enquanto nos Estados Unidos caiu 3,5%. Aqui, entre 2003 e 2007 as vendas aumentaram 24,93%. Ásia (4,7%) e América Latina (6,7%) também indicam crescimento, enquanto a Europa mostra queda de 1,87%. Em toda a América do Sul, as vendas de jornais aumentaram 6,72% no período, tornando-se a região do mundo com maior aumento relativo, mais que o dobro do geral. Os dados constam do relatório Tendências Mundiais de Imprensa, divulgado em junho de 2008 pela Associação Mundial de Jornais (WAN).
No mundo, a circulação dos jornais cresceu 2,57% no ano passado. Se incluir os jornais gratuitos, a variação positiva sobe para os 3,65%. No total, foram vendidos mais de 532 milhões de títulos no decurso de 2007, um valor acima dos 486 milhões registados no ano de 2003.
Dois jornais de prestígio nos Estados Unidos – The New York Times e Los Angeles Times tiveram queda de 5% na circulação. E a receita publicitária do setor teve a maior queda da história, o equivalente a 4 bilhões de dólares. Segundo especialistas, o principal concorrente do jornal é a internet, com mais de 220 milhões de usuários no mundo. A publicidade na internet cresceu 19% em 2007.
China, com 107 milhões de exemplares vendidos diariamente, Índia (99 milhões), Japão (68 milhões), Estados Unidos (51 milhões) e Alemanha (20,6 milhões) são os cinco maiores mercados mundiais de jornais. "A circulação dos periódicos aumentou ou permaneceu estável em 75% dos países do planeta nos últimos cinco anos e em quase 80% dos países ano passado", segundo Timothy Balding, presidente da WAN.
"E mesmo nos sites onde a difusão paga está em baixa, sobretudo nos Estados Unidos e em alguns países da Europa Ocidental, os jornais seguem ampliando sua audiência por meio de uma grande variedade de publicações gratuitas e especializadas e com as plataformas multimídia, em plena expansão", acrescentou.
Segundo a WAN, "as receitas publicitárias ligadas à internet --não apenas os jornais on-line e sim toda a publicidade na internet-- aumentou 32,45% em um ano e 200% entre 2003 e 2007".
A revista Exame (No pelotão dos emergentes) de 29/05/08 faz uma análise desse crescimento, sobretudo no Brasil, com o surgimento de vários títulos de jornais gratuitos, distribuídos nas ruas de algumas capitais e no metrô de S. Paulo. Em Londres, no início da tarde, nas ruas mais movimentadas, são distribuídos também dois jornais diários, que fazem a festa dos passageiros do metrô e dos ônibus.
Diante de todos esses números, pergunta-se qual o futuro dos jornais impressos. Será que os veículos impressos, principalmente os jornais, terão fôlego para aguentar o ataque avassalador do noticiário on line?
Jornais perdem leitores e valor de mercado
O jornalista Eric Alterman, colunista do The Nation e professor na Universidade de Nova York, em artigo publicado na revista The New Yorker, em 31 de março, reproduzido no Brasil no caderno Mais, da Folha de S. Paulo de 08/06/08, é pessimista quanto ao futuro dos jornais. “Pouca gente acredita que os jornais, na forma impressa de hoje, tenham chance de sobreviver. Eles estão perdendo anunciantes, leitores, valor de mercado e, em alguns casos, o próprio senso da missão, num ritmo que teria sido difícil imaginar meros quatro anos atrás”, assegura.
Numa análise densa, no artigo, o autor diz que nos últimos três anos os jornais americanos independentes perderam 42% de seu valor de mercado, segundo o empresário de mídia Alan Mutter. Investir em jornais deixou de ser um bom negócio.
“As companhias jornalísticas mais admiradas começaram, de repente, a parecer um fardo empresarial. Em vez de competir numa era de transformação, as famílias que controlavam o Los Angeles Times e o Wall Street Journal venderam a maior parte das ações. Isso significa que de uma atividade altamente lucrativa, possuir um jornal hoje pode ser um mau negócio.
“Na era da internet ainda não apareceu ninguém com uma solução para salvar o jornal, nos EUA e no mundo. Os jornais criaram sites que se beneficiam da alta da publicidade on line, mas os valores vindos dessa fonte não cobrem, nem de longe, a perda de faturamento com a queda da circulação e da publicidade impressa”.
“De 1990 para cá, um quarto dos empregos no ramo jornalístico desapareceu.” Realidade que também ocorreu no Brasil. As redações ficaram mais enxutas. Jornalistas que saíram das redações constituíram empresas de comunicação ou foram trabalhar em assessorias de imprensa ou fizeram concursos públicos.
O resultado desse enxugamento foi a queda na qualidade do produto. “Talvez isso ajude a explicar por que o número decrescente de americanos que compram e lêem jornais diários gasta cada vez menos tempo com eles: a média é inferior a 15 horas por mês. E meros 19% dos americanos com idade entre 18 e 34 anos declaram consultar jornais diários. A idade média do leitor de jornais é de 55 anos – e a curva aponta para cima”, diz Alterman.
O autor diz que os jornais estão prestes a virar peça de museu. “Quem vai tomando o lugar, como se sabe, é a internet, que está a ponto de ultrapassar os jornais como fonte de informação política para os leitores americanos – coisa que já aconteceu entre os jovens e os politicamente engajados. Já em maio de 2004, os jornais ocupavam o último lugar entre as fontes de notícia preferidas pelos leitores mais jovens”.
Enquanto isso, o cenário para as revistas também não tem boas perspectivas. A revista Advertising Age, de junho, dedicada à publicidade americana, informa que a U.S.News & World Report, a terceira revista dos EUA, vai virar quinzenal, em vez de semanal. Um outro colunista revelou que a Newsweek não irá sobreviver mais cinco anos.
Aqueles que não aceitam admitir que o fim do jornal está próximo, defendem a busca de caminhos alternativos. O tradicional jornal noticioso perde cada vez mais a razão de ser. Não há como competir com a internet, por isso o caminho seria um jornalismo analítico, mais denso, de grandes reportagens, muito próximo do tempo em que os jornais investiam em grandes nomes do jornalismo e em temas mais profundos, que não têm suporte hoje na linguagem instantânea e superficial da internet.
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