A polêmica Assessor X Jornalista

Um tema que tem pautado a discussão de encontros de comunicação, aulas de jornalismo e sindicatos é a polêmica suscitada por alguns jornalistas de que Assessor de Imprensa ou Assessor de Comunicação, mesmo sendo jornalista de direito, não seria jornalista de fato, por exercer uma função incompatível com a de um jornalista. Jornalista, no entendimento de uma corrente, seria apenas aquele que trabalha em redação, descaracterizando-se dessa função todo aquele que exerce atividade em alguma empresa, qualquer que seja a função na área de comunicação. O debate está na pauta e especialistas no tema já se manifestaram sobre isso, mas a polêmica está longe do fim. Para manter o tema em debate, publicaremos neste espaço artigos de colaboradores ou especialistas que já discutiram ou estão discutindo o assunto, citando a fonte quando o artigo já foi publicado em outro espaço.

Por notícias bem tratadas na origem
Carlos Chaparro

O XIS DA QUESTÃO - O debate sobre assessoria de imprensa precisa transpor os limites corporativistas. A discussão que se faz despreza a complexidade contemporânea do jornalismo, como se no mundo, nos últimos 50 anos, nada tivesse acontecido que modificasse os contextos e as formas de fazer dessa atividade. No mundo atual (e essa é uma realidade que não terá volta), o percurso organizado da notícia não começa nas redações, mas nas fontes. Às vezes, nem pelas redações passa. Logo, em favor do próprio jornalismo, a notícia deve ser tratada desde as origens, por profissionais habilitados. Por que não jornalistas?
No jornalismo, a revolução das fontes
Com freqüência que chama a atenção, surge nos debates deste espaço a questão (já velha, embora cada vez mais atual) que envolve as relações entre assessorias de imprensa e redações - mesmo quando tal assunto pouco ou nada tem a ver com os temas propostos pela coluna. De um lado e de outro, a discussão fica quase sempre empobrecida pelo viés da arrogância corporativista dos argumentos, em torno da polêmica se o assessor de imprensa deve ou não ser considerado jornalista. Ou se o seu trabalho tem ou não natureza jornalística.
O que pesa na polêmica, e lhe tem dado base, é a crença de que o jornalismo, profissão secular, continua imutável como expressão e denominação de um poder imaginário (o tal quarto poder), como se no mundo, nos últimos 50 anos, nada tivesse acontecido que modificasse os contextos e as formas de fazer dessa atividade. Assim, despreza-se por inteiro a complexidade contemporânea do jornalismo, transformado em linguagem por meio da qual se manifestam os conflitos discursivos da atualidade, e em espaço público onde esses conflitos se realizam com sucesso. Sem o que não haveria democracia.
Penso que esse debate precisa transpor os limites corporativistas. Com tal objetivo, e na esperança de poder motivar mais uma discussão polida e inteligente, deixo aqui um conjunto de recortes de textos que já escrevi sobre o assunto, extraídos do livro Linguagem dos Conflitos, editado em Portugal (2002) pela Minerva-Coimbra.
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(...) A competência de produzir e difundir discursos sob a forma de acontecimentos é uma riqueza democrática e um direito de cidadania. Claro que os poderosos da economia e da política se beneficiam disso. Mas, graças ao mesmo processo, também as minorias organizadas (os homossexuais, as etnias, os portadores de deficiência...) e os movimentos de vanguarda (os sem-terra, os ambientalistas...) colocam com sucesso seus discursos na sociedade.
A mais importante modificação ocorrida nos processos jornalísticos nos últimos quarenta anos foi, a meu ver, a organização e a capacitação discursiva das fontes interessadas, produtoras e controladoras de acontecimentos, revelações e falas que alteram, explicam ou desvendam a atualidade. Elas produzem e controlam as informações que interessam ao jornalismo, e hoje fazem isso estrategicamente, como forma competente de agir e interagir no mundo.
Embora pouco se fale delas, as fontes fizeram uma revolução no jornalismo.
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(...) O jornalismo não pode ter a ambição vaidosa de assumir papéis e espaços que devem pertencer a outros sujeitos, principalmente os que constroem as divergências e os confrontos. Ao contrário, e a meu ver, deve privilegiar e desenvolver em si mesmo a vocação de captar, entender, interpretar e ajustar ou confrontar os discursos organizados dos grupos sociais, institucionalizados ou não, sejam eles produtores de ações ou vítimas delas.
Para que as transformações aperfeiçoadoras produzidas pelos conflitos aconteçam a partir da sociedade, e dentro dela, o jornalismo não pode colocar-se em altares sobranceiros, para a veneração, nem nos mirantes da soberba, para a exibição de vaidades. O jornalismo tem que se inserir na própria sociedade, oferecendo-lhe a eficácia ética, técnica e estética do discurso jornalístico.
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(...) A confiabilidade do jornalismo é uma virtude submetida a renovadas crises, exatamente porque no jornalismo desembocam, para os confrontos discursivos, os acontecimentos noticiáveis por meio dos quais se manifestam os interesses particulares dos segmentos organizados da sociedade. Noticiar é a forma mais eficaz de intervenção dos que lutam para mudar ou conservar o mundo, principalmente nos domínios da ideologia, da economia, dos negócios, da política, da cultura e da religião. Nas democracias, os confrontos manifestam-se nos espaços públicos, são regulados por acordos político-sociais produzidos pela história, e em novos acordos resultam, assim ocorrendo a construção do presente e o aperfeiçoamento do sistema.
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(...) Os jornalistas não gostam de ouvir nem de dizer que dependem das fontes. Entretanto, na dimensão do mundo real, é na fonte que o repórter colhe o relato, o testemunho, a opinião, os ais e uis com que compõe a narrativa do quotidiano, sua arte maior. No jornalismo, até ao mais brilhante contador de histórias de pouco servirá a arte de escrever se não souber onde estão as boas fontes e como lidar com elas.
Dependemos das fontes. Sem elas não existe a informação decisiva, o detalhe poético, a versão esclarecedora, a frase polêmica, a avaliação especializada. A fonte faz acontecer, revela o segredo, detém o saber ou a emoção que queremos socializar. Ou sofre os efeitos e a eles reage.
(...) Na hora de escrever, na rotina da produção e dos procedimentos profissionais (os conscientes e os inconscientes), a perspectiva das fontes influencia, inevitavelmente, a decisão jornalística – e quanto mais competente elas se tornam, mais capazes são de determinar enfoques, relevâncias e até títulos, na narração jornalística.
As interações do jornalista com a fonte envolvem conflitos e acordos inevitáveis, porque a interlocução é viva, interessada - na maioria das situações, entre interlocutores reciprocamente confiáveis e confiantes.
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(...) Na boa fase jornalística do pós-guerra, as grandes instituições empresariais e governamentais tinham, em relação à imprensa, uma atitude passiva e burocrática, quase sempre defensiva. Na escassez de fatos e casos importantes intencionalmente produzidos, o inusitado, o insólito, o engraçado, e também o linearmente dramático (o atropelamento, a tragédia, o crime passional, a morte inesperada...) reinavam como atributos decisivos nos critérios de pauta e edição, mesmo nos grandes jornais. Foram tempos em que o fait-divers ganhou honrarias e venerações de mito, na cultura jornalística.
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(...) As coisas mudaram ao longo dos anos 70, principalmente depois deles. Democracia, mercado e tecnologia formaram a mistura que criou a lógica da competição sustentada em informação, com mais ou menos exageros neoliberais. Institucionalizaram-se os interesses, as ações, as próprias pessoas. Globalizaram-se os processos, as emoções, principalmente os fluxos e os circuitos da informação. E o desaparecimento de intervalos de tempo e distância entre os fatos e a sua difusão pela notícia subverteu os conceitos de atualidade, proximidade, universalidade e periodicidade, características básicas e constantes do jornalismo.
Notícia tornou-se o produto mais abundante da realidade global. Noticiar passou a ser a mais eficaz forma institucional de agir, discursando, e de discursar, agindo. Para o sucesso, as instituições apropriaram-se das habilidades narrativas e argumentativas do jornalismo; assimilaram as rotinas e a cultura da produção jornalística; e no planejamento e controle dos acontecimentos, a dimensão comunicativa ganhou preponderância, para a divulgação dos eventos e a difusão do discurso.
Em crescendo que os estudos especializados não acompanham, aumentou (...) nos noticiários a participação de acontecimentos planejados, com conteúdos fornecidos pelas fontes.

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(...) A porosidade de fronteiras (entre jornalismo e propaganda, por exemplo) tornou-se um caminho sem volta. E aos que não acreditam nisso, recomendo a leitura atenta do noticiário político e econômico. Até nos textos mais críticos, de articulistas, afloram as intenções interesses das fontes, em interações que também convêm ao discurso jornalístico.
Quando há profissionalismo dos dois lados, e respeito pelos limites alheios, o resultado é bom.
A verdade é que, sem fontes que mereçam fé, não há jornalista nem jornalismo que sobreviva, até porque, cada vez mais, o mundo moderno obriga o jornalista a escrever sobre acontecimentos a que não assistiu e sobre coisas de que não entende.
Ora, se é assim, e porque as fontes organizadas (essas que têm assessoria de imprensa, sejam elas governo ou oposição, empresas ou minorias sociais, igrejas ou partidos políticos, indústrias da cultura ou grupos transgressores, artistas, empresas de comunicação, universidades ou sindicatos) são também as instituições produtoras de atos, fatos, falas, saberes e produtos de interesse jornalístico, podemos dizer que o percurso da informação distribuída nas ruas não começa nas redações, mas nas fontes. Logo, pode e deve ser tratada, desde as origens, por profissionais habilitados.
Por que não jornalistas?

Fonte: Comunique-se
Data: 07/10/05